O canto popular de Juliana Ribeiro

Vem de um lugar seguro e cheio de si a voz de Juliana Ribeiro. O ponto de partida abriga afeto e identidade, estudo e talento, força de vontade e intuição. A preta brasileira, nascida e criada na Praia de Itapuã, encontrou-se ainda cedo com a arte, através da música. Na academia, dedicou-se à técnica. Na vivência das ruas de Salvador descobriu o popular. Foi em São Paulo, na Unicamp, durante um curso de Canto Popular no Brasil, que se ouviu ao reparar atenciosamente em Xisto Bahia, entoando os versos de “Isto é Bom”. A partir daí foi fácil trilhar o seu caminho, unindo conhecimento ao reconhecimento. Lundu, jongo, semba e maxixe são ritmos pouco conhecidos por alguns, mas facilmente incorporados ao seu repertório e composições. Independente de onde esteja cantando, se na Bahia ou em terras além mar, sua voz se lança de um mesmo lugar. E tem um destino traçado no ponto de partida da história de cada um de nós.

Quando você surgiu na música e quando a música surgiu em você? Foram em momentos diferentes?
Eu não era uma criança que tinha uma coisa assim de “eu quero ser artista quando eu crescer”. Eu não sabia o que eu queria ser e ia por eliminação. Isso eu tenho claro. Tinha certeza que eu não queria nem Direito, nem Medicina ou Engenharia. Algumas coisas me interessavam e eram ligadas ao que é o ser humano. Sempre me interessei muito pelo ser humano e pelas possibilidades que ele traz. E aí, quando fui fazer vestibular, fiz para Teatro. Sabe aquela figura que sempre faz a peça de final de ano da família? Sou eu, sempre fui eu. (Risos). Resolvi fazer Teatro e Psicologia. Eu não passei em Teatro porque tinha um teste de aptidão e aí cai naquele lugar da dificuldade do acesso à arte no Brasil. Quando eu descobri que para fazer arte no vestibular eu já teria que ter estudado arte durante anos, seja no Teatro, que era o que eu queria, seja na Música, me assustei. E isso é para qualquer pessoa que quiser fazer arte no Brasil. Existe uma lacuna gigantesca. Fui para a Psicologia e História. Passei no vestibular, comecei a cursar e me encantei por História, a verdade é essa. Só que, ao mesmo tempo em que eu fazia esse curso, eu já estava fazendo outras coisas de música. E a primeira possibilidade que eu tive de estudar foi com 16 anos, no coral da UFBA, na Associação Lírica da Bahia (ALBA), regida pelo maestro Pino Onis, que existe até hoje. Eles estavam admitindo pessoas e, como é federal, existia uma verba para isso, então eu não precisaria pagar para ter acesso.

Como foi esse primeiro contato?
Desde os 16 anos eu vinha estudando canto lírico. Quando eu entrei na faculdade, eu já tocava violão, já tinha uma relação muito próxima com a música. Era fã de Ney Matogrosso, tocava Secos e Molhados absurdamente. E aí o pessoal me via tocar e cantar e surgiu o convite para uma banda que, na época, se chamava Zaccatimuana. Isso foi nos anos 2000. Topei. Quando entrei na banda, pensei “Agora o negócio vai ficar sério e eu vou estudar”. Enquanto eu fazia história, me matriculei no curso de extensão da UFBA de canto lírico. Foi quando eu consegui me formar técnica em canto lírico, com 23 anos.

E o samba e suas vertentes? De onde surgiu o interesse?
Foi um caminho. A Zaccatimuana tinha um trabalho autoral que era muito bacana, baseado nas rítmicas brasileiras. A gente tinha tambor de crioula no repertório, ijexá, maracatu (na época estava surgindo o movimento Mangue Beat), coco, muita coisa bacana, só que tudo autoral. Pesquisávamos os ritmos e criávamos, coletivamente, músicas que tivessem aquela métrica. Por isso que foi uma revolução naquela época. A galera do cenário alternativo era muito rock n’roll e a Zaccatimuana não. As pessoas que queriam dançar adoravam. A gente tem essa relação com o corpo muito forte, a gente é africano na nossa essência, não tem para onde correr.

Em 2005 eu fui para Unicamp. Tinha a formação em canto lírico, só que eu sempre cantei popular. Aprendi muito com o lírico e devo a ele muito da minha bagagem musical, mas também queria aprender a técnica do canto popular. Para mim não era a mesma coisa, porque, por exemplo, balé não é igual à dança afro. As cantoras líricas não cantam igual à Elis Regina. Fui para a internet e descobri que só a Unicamp tinha o curso de canto popular no Brasil. Me inscrevi como aluna especial, a princípio, e passei o ano lá estudando. Nesse processo fui redescobrindo minha voz. Precisei fazer um trabalho de pesquisa sobre as vozes dos anos 30 e quando eu fui para a fonoteca ouvir essas pessoas, tomei um susto. A gente tem preconceito com as músicas “antigas”, a gente tem essas bobagens. Eu fico vendo hoje como as coisas são divididas e falo: “Gente, as pessoas acham que estão criando as coisas, mas não estão criando nada”. Tudo já foi inventado. As harmonias mais ‘tronchas’, as melodias mais loucas, as letras mais picantes, estão lá nos anos 30. A galera era muito mais livre do que hoje. Hoje é tudo muito controlado.

Fui descobrindo outras coisas. Descobri que, antes do samba ser samba, ele foi vários outros ritmos que eu não sabia. O primeiro impacto foi ouvir um lundu. Aquilo foi uma revolução na minha cabeça. Quando eu ouvi Xisto Bahia cantando “Isto é bom” pela primeira vez, eu falei “Meu deus, mas isso sou eu! Como assim eu estou descobrindo isso aqui?”. Uma mulher, negra, baiana, na Unicamp, em São Paulo, se ouvindo. Aquilo foi um choque para mim. Aí eu fiquei louca e comecei a ir atrás. Tudo o que eu lia nas biografias eu tentava ouvir.

Salvador é uma cidade que produz mulheres que cantam Axé. Você chegou a pensar nesse caminho?
Eu já tive até proposta, na verdade. Diziam que eu tinha uma voz e presença ótimas para cantar axé, mas eu queria cantar samba. “Assim você nunca vai subir em um trio”, me falaram. Como eu já ouvi isso! (Risos). Hoje em dia, eu faço trio há mais de sete anos no Carnaval de Salvador, fazendo a minha música. Minha mesmo, eu levo música autoral para o trio elétrico. Eu acredito nela, então, porque eu tenho que cantar o que todo mundo canta?

Você é historiadora e mestre em Cultura e Sociedade. Como a academia influencia ou influenciou seu modo de ver e fazer a arte?
O caminho foi o contrário. Eu queria levar a música para dentro da academia. Não sou uma acadêmica que canta, eu sou uma cantora que é acadêmica. É diferente. Quando eu cheguei à Unicamp, entendi o que eu queria: estudar música ou o fonograma. Eu não queria estudar partitura, eu também não queria ir para Letras estudar letra, nem história. Eu queria estudar a música. Sabe quando você coloca uma música e o clima muda? As pessoas mudam, a energia do lugar se transforma. O que esse elemento, o fonograma, faz: é isso que eu gosto de estudar.

O que Salvador traz de diferente dos espaços onde você já esteve para estudar ou cantar? Como a cidade pulsa em você?
Eu não vou conseguir te responder com precisão porque faz parte de mim. Não é uma coisa que possa dizer “isso é de Salvador”, porque eu sou. Eu sou Salvador. Sabe onde eu percebo? Quando eu estou fora daqui, nas relações culturais. Quando eu canto e o que eu canto, quando meus músicos tocam determinadas canções e as pessoas ouvem o sotaque da percussão. Aquilo tem um impacto absurdo nas pessoas.

O Roque Ferreira diz que, se o samba nasceu na Bahia, a Bahia e é uma péssima mãe. Como é isso pra você? Você consegue viver do samba aqui? Já pensou em morar em outro lugar?
Penso muito em morar, por uma questão profissional, em São Paulo. Difícil é o clima, mas é onde não falta trabalho. Eu sou uma pessoa de trabalho, eu adoro trabalhar. Não me deixe sem isso que eu fico louca. E eu penso muito em poder levar essa música pra fora. Tem tanta coisa que efervesce na minha cabeça, monto shows diferentes, e na hora de desaguar, onde se deságua isso? Eu não sou de reclamar, odeio discurso de vítima. Eu sou de fazer. Mas preciso que esse trabalho seja visto e remunerado. Ter acesso à minha musicalidade e a de tantos outros artistas, cantoras e cantores da cena independente de Salvador, é o poder da escolha. Só podemos escolher se tivermos acesso, e quando nos tiram isso, nos tiram nosso poder de escolha.

A mecha colorida é um ponto marcante da cantora Juliana Ribeiro ou fala de você como um todo? Existe aí uma personagem?
Para mim não existe um personagem. É o contrário: eu subo no palco e sou eu, o personagem está aqui, fora do palco. Em cima do palco eu estou desnuda. Sobre a mecha, eu acho linda a Cruela, do filme “101 Dálmatas”. Aquela mecha é elegantérrima, sempre quis ter uma. Aí aconteceu um fato na minha vida que não foi feliz, que foi a passagem de meu pai para o andar de cima. Quando ele se foi, tive muitas coisas para resolver. E aí surgiu uma mecha branca menor do que essa atual. Descobri que era um sinal de família. Eu não queria virar escrava de tinta e ficar pintando o cabelo de preto, mas é impressionante como a sociedade se incomoda. Quando eu colocava o torso e ficava aquela mecha branca, as pessoas ficavam reclamando: “Ai, que cabelo branco, que descuido”. Se incomodavam mais do que eu. Foi aí que me lembrei de Cruela, descolori meu cabelo e, inspirada nela, veio para o loiro. O contraste era esse: ela tinha cabelo branco com a mecha preta e eu seria o cabelo preto com a mecha branca. Todo mundo ficou louco. Foi quando eu lancei o disco “Preta Brasileira”, junto com a mecha. Agora todo ano eu mudo a cor. No momento é azul, uma cor que eu queria há muito tempo, mas ainda não tinha a tinta aqui em Salvador.

Como é sua relação com a religiosidade? De que forma ela conversa com sua arte?
Eu sou uma pessoa religiosa, adoro saber que eu não estou sozinha. As energias estão aqui comigo, do meu lado, me ajudando. Gosto de orar, tenho meus altares, é uma coisa que herdei da minha avó, que era rezadeira. Sou candomblecista, mas também frequento o centro espírita. Não sou feita dentro do candomblé, então isso ainda me permite trânsitos. Eu tenho mediunidade e às vezes eu posso ajudar outras pessoas de algumas formas, ouvindo coisas que o espiritismo me diz. E aí vem o candomblé e me diz outras coisas. São energias completamente diferentes, de força. O candomblé faz parte da história da minha família, é além de mim. Inclusive, é uma coisa recente na minha vida, embora eu tenha toda uma história familiar. Minha bisavó era Xica Xangô de Ouro, meu irmão fez uma música para ela e eu gravei no disco “Amarelo”. Até então eu não tinha nenhuma relação com a religião. Tenho também uma relação forte com Iemanjá. Sou filha de Oxum, mas fui criada por Iemanjá, sempre foi uma entidade próxima a mim. Sou filha de Itapuã, tudo eu fazia no mar. Quando eu estava mal, eu ia para o mar, quando fiquei adolescente e queria me divertir, ia fazer luau na praia. Tudo era perto da água. Desse contato veio a música “Eu vim das águas”. Queria uma canção para Iemanjá, mas não chegava, não vinha. Foi aí que sonhei com a música. Ela veio toda durante o processo do CD e coloquei nele essa homenagem a Iemanjá. É uma música sobre a nossa relação.

Quem te inspira?
Me inspiram posturas, me inspiram verdades, mais do que música. Rita Lee foi minha primeira referência musical. Clementina de Jesus e as mulheres que tem cantos viscerais como Elza Soares, Elis Regina e Maria Bethânia. Mulheres que metem o pé na porta, artistas que são capazes de transformar cotidiano em poesia. Vinicius de Moraes, Baden Powell fazia isso no violão, Tom Jobim. Fico sem ar, sem fôlego. A surpresa me inspira. E a visceralidade. Eu sou uma cantora da visceralidade, gosto de gente que sangra quando canta. Eu sou assim. Esse canto muito pueril e leve não me arrebata. Por isso que eu acho uma bobagem quando as pessoas falam de cantoras antigas, quando as acham démodé. Você não sabe de nada, neném. (Risos). Você não sabe o que é Elizeth Cardoso cantando. Aquela voz que vai do agudo para o mais grave sem uma quebra. Isso é uma coisa que você fica na academia estudando anos… É difícil fazer aquilo e aquela mulher faz. Carmen Miranda me inspira. Ela tira você do chão rápido: dá aquele impacto. Isso é fantástico. E, infelizmente, no Brasil a gente ainda tem muitos preconceitos com os nossos ídolos.

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