Circuito Rolezinho: a juventude que ocupa

 

Quando os Panteras Negras, partido revolucionário que lutou pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, surgiu na década de 60, Luma Nascimento e Yasmin Reis ainda não tinham previsão de vir ao mundo. Hoje, tempo em que ainda se precisa lutar por representatividade em um país de poucos avanços e muitos retrocessos, as duas jovens – de 26 e 21 anos, respectivamente -, assim como os Panteras, como elas mesmas gostam de mencionar, também escolheram suas armas: a arte e a ocupação. Assim, surgiu em Salvador o Circuito Rolezinho, iniciativa que propõe a conquista de espaços e novas narrativas, por meio da realização de atividades que dialoguem com a juventude negra.

“A ideia de criar o Rolezinho partiu muito do momento que estávamos vivendo e sentimos vontade de construir alguma coisa, fazer algo. Eu, Yasmin e a Monique Evelle nos reunimos em um bar no Rio Vermelho e começamos a conversar. Dentro dos nossos questionamentos e lugares de fala, percebemos várias ausências e vivências que tivemos, de como nós, jovens negros, que gostamos de sair e viver, somos tratados nas festas. E aí pensamos em criar o Circuito Rolezinho. Depois de muitas tentativas, o nome foi pensado com a intenção de remeter àquela história que aconteceu em São Paulo”, explica Luma.

Em 2013, jovens da periferia de São Paulo – negros em sua maioria – marcaram pelas redes sociais encontros nos shoppings centers da capital paulista, os chamados rolezinhos. O assunto ganhou repercussão nacional quando comerciantes começaram a se sentir ameaçados pelo movimento, fazendo com que muitos centros comerciais conseguissem liminares judiciais para impedir a realização dos encontros – o que gerou debate sobre a discriminação social e racial no Brasil.

Em Salvador, o Circuito Rolezinho quer debater, mas também quer ocupar e construir novas narrativas. Na primeira edição, o evento teve 13 horas de duração, entre atividades que envolviam música, cinema, performances e rodas de conversa – tudo com foco no protagonismo e pertencimento da juventude negra. Foram 16 projetos e 12 artistas, entre eles, Russo Passapusso, vocalista da banda Baiana System. A segunda, também realizada na Oficina de Investigação Musical (OMI), no Pelourinho, contou com 20 horas de programação, 27 projetos, 13 artistas e a presença de mais de 1 mil pessoas. Um circuito que mais parece festival.

“Uma coisa muito real de Salvador é que aqui tudo termina em festa. Muitas vezes, as pessoas não vão para determinado lugar porque não tem uma festa. Então, a gente resolveu fazer um circuito que não fique só marcado por isso, mas que as pessoas aproveitem o que acontece antes, como as oficinas. São oficinas diversas, de culinária, algumas coisas de costura, audiovisual, dança. A gente faz muita parceria e, como já estamos nesse meio, conseguir uma galera que se disponibilize para ajudar não é difícil”, ilustra Yasmin, que é musicista e videomaker.

As diferentes linguagens utilizadas pelo Rolezinho, tanto nas redes sociais quanto nos eventos, buscam dialogar com o que Luma chama de “geração tombamento”. “Como a gente pode atingir essa geração? Trazendo possibilidades de se pensar. O menino que é negro, faz ilustração e nunca ilustrou um rosto negro porque sempre teve dificuldade. Aí ele vai para o evento e depois manda uma mensagem pra gente agradecendo por ter aprendido um outro olhar. É muito gratificante, muito bonito”, ressalta a pedagoga e influenciadora digital.

Embora Salvador seja, no mundo, a cidade com o maior número de negros, fora da África, a dupla aponta que o racismo e a falta de acessibilidade ainda é evidente na capital soteropolitana. E ambos são determinados não só pela cor, mas também pela tonalidade da pele. “O racismo que eu passo não é o mesmo que a Yasmin passa. Sempre me perguntam se eu sou gringa ou africana. É muito chato todo dia ter que repetir essa resposta: sou baiana. Por que não me deixam ser baiana?”, questiona.

Ocupar a cidade é um dos objetivos do Rolezinho, mas a ocupação das redes é o ponto de partida. Por meio de postagens, vídeos e fotografias, a dupla se utiliza de símbolos, fontes e cores para comunicar e, principalmente, convocar o público.

“A gente quer chegar aterrorizando, mas de uma maneira diferente. Quando derem conta, a gente já vai estar lá, ocupando tudo. Nós somos a nova revolução: a revolução virtual”, define Yasmin.

 

 

 

 

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