A música e a capoeira de Tonho Matéria

Antônio Carlos Gomes Conceição estava na sala de aula da Escola Municipal Josafá Carlos Borges, na Caixa D’água, quando ouviu uma pergunta de sua professora Lúcia: Antônio, o que significa matéria? “Matéria, professora – respondeu fazendo arte, é essa cadeira. Essa parede, é a senhora, é tudo que tem massa e ocupa lugar no espaço. Eu sou uma matéria”. A educadora que lhe deixaria de castigo no intervalo da classe, olhando fixamente para a parede, no intuito de castigar sua zombaria, mal imaginava que futuramente o episódio trivial iria compor o nome artístico do cantor, compositor, mestre de capoeira, publicitário e diretor da Associação Cultural de Capoeira Mangangá, Tonho Matéria, o primeiro artista a inserir a capoeira em espetáculos musicais. Com mais de 300 músicas gravadas, Tonho tem passagem pelos mais diversos blocos afros soteropolitanos e atualmente ocupa o vocal da banda Ara Ketu.

 

 

Foi no Pau Miúdo, em um dia de muita chuva, que dona Frozina deu a vida a Antônio Carlos, em 1964. Com ajuda de Dona Júlia, uma parteira do bairro, o menino nasceu ali mesmo, na porta de casa, no Dia das Mães. A chegada repentina se deu quando uma parede de casa desabou em meio ao mau tempo. O susto antecipou a boa hora e de pronto ele foi entregue a São Lázaro, através de uma promessa que tinha o intento de que sobrevivesse ao acontecido. Antônio resistiu e tornou-se o filho que transformaria a história daquela família. “Meus pais foram alfabetizados por nós, seus filhos. Fui um dos responsáveis por ensiná-los a ler. Minha mãe queria que eu fosse doutor, mesmo eu não entendendo bem, naquela época, o que isso significava”, conta.

Foi acompanhando a mãe no tabuleiro de acarajé, nas festas de largo, que Tonho Matéria encontrou os caminhos da Cidade da Baía. Para que Dona Frozina pudesse retornar cedo para casa, enchia a bandeja de quitutes e saía para vender. Conversador, como gosta de se definir até hoje, terminava o serviço ligeiro e ia observar as rodas de capoeira que se formavam no burburinho popular. Foi também na companhia de um vizinho, Popó, que mergulhou ainda mais no mundo musical dos jogos de capoeira. “Ele tinha LPs dos mestres Caiçara e Suassuna. Encostava-se no sofá, com os pés para cima, e ali passava todo o final de semana escutando aquilo”, relata sorrindo. É com seu Popó, aos seis anos de idade, que Tonho aparece no seu primeiro registro fotográfico da infância. Durante a conversa, ele faz questão de lembrar, com carinho, de todos que contribuíram para a sua formação.

A experiência com o candomblé foi seu primeiro contato musical com a percussão. Antônio foi suspenso ogã, sacerdote masculino escolhido pelo orixá em casas de axé, com apenas oito anos de idade. Na época, o filho de Ogum ainda não entendia muito bem o que isso significava. Na juventude, passou por diversos afoxés, enquanto desenvolvia outros trabalhos para a manutenção da renda familiar. “Comecei como comerciante, vendi caldo de cana, picolé, fui tamanqueiro, pedreiro e conferente. Mas foi quando estava trabalhando na OAS, como vigilante, que fiz muitas músicas”, conta o cantor, que na época participava do bloco Afreketê. Sua primeira composição, feita para o bloco afro Ébano, contou com a inspiração do poema “Vozes d’África”, de Castro Alves.

Tonho Matéria passou por muitos blocos durante sua juventude. Além do Ébano e do Afreketê, o artista marcou presença no Olodum, Amantes do Reggae e Ara Ketu, compondo canções que foram regravadas por grandes intérpretes do cenário nacional, como Leci Brandão, Daniela Mercury, Beth Carvalho, Chiclete com Banana e muitos outros. Sua composição “Quem Baila” foi a primeira a ser cantada, na voz do Olodum, nas rádios do Brasil. Foram mais de 300 músicas compostas, dentre elas o sucesso nacional “Melô do Tchaco”. “O tchaco é um samba de roda que mistura vários pedaços de outras músicas. Ele fala muito sobre mim, sobre essa coisa de mostrar a cara, ter jogo de cintura. Desde cedo eu precisei me afirmar para que o sistema não me excluísse. Sou um homem negro. E para me tornar quem eu sou, precisei de muitas outras pessoas”, afirma.

 

 

Compositor de “Akhetaton e Nefertiti”, música entoada pelo Bloco Olodum, Tonho Matéria, desde muito novo, é conhecido por se utilizar de metáforas no processo musical criativo. “Nem sempre os caras entendiam minhas letras. Minha formação sempre foi essa, de estudar palavras diferentes,no dicionário, e criar algo que a negrada pudesse aprender. Sem saber, ainda menino, já estava trabalhando com a formação de outros jovens através da linguagem”, explica o mestre.

É esse o trabalho que desempenha, até hoje, à frente da Associação Cultural de Capoeira Mangangá, com sede no Pau Miúdo, local onde construiu suas primeiras memórias afetivas. Ao todo, cerca de 1000 pessoas fazem parte do projeto, criado em 2001, responsável por desenvolver ações socioculturais, educacionais, musicais, esportivas e de cunho turístico. “Essa é uma atividade constante que realizo com os meninos. Peço que pensem em uma palavra e a transformem em uma, duas, cinco músicas. Isso é de uma riqueza imensa, porque está para além da prática comum do nosso dia a dia”, finaliza satisfeito. Além das atividades anuais, Tonho Matéria ainda é responsável pelo Bloco Mangangá, que sai às ruas do centro da cidade na quinta-feira de carnaval, arrastando cerca de 3 mil foliões.

Aquele pequeno, que aos 11 anos teve sua alma tocada pela música, ao escutar “Todo Menino É um Rei”, trocou os olhos marejados e a incerteza de um futuro por um sorriso largo acompanhado por uma voz potente. “Eu quero ser isso aqui” disse, um certo dia, para sua professora, apontando para o rádio, ainda sem saber nomear a profissão que dá voz a um conjunto de palavras melódicas que traduzem a nossa existência. Com o tempo, a vida mostrou: seria, entre tantas outras coisas, um cantor.

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