O sincretismo religioso da Igreja de São Lázaro e São Roque

Do alto do cume ainda é possível enxergar o mar, que desenha uma meia lua por trás da igreja erguida em 1573. Na época, as construções que dão forma ao Largo de São Lázaro não passavam de uma mata verde, distante das zonas populosas o suficiente para a criação de um hospital que abrigava homens e mulheres, trazidos do continente africano em condição de escravos, contaminados pela lepra. A doença, naquele momento incurável, era transmitida através do contato e simbolizava a impureza.  Ali, em frente à casa de saúde, homens isolados construíram um espaço de conexão com o seu divino, que mais tarde se tornaria a Igreja de São Lázaro e São Roque, santos católicos, e um ambiente íntimo a Omolu e Obaluaiê, orixás de religiões de matrizes africanas que simbolizam a cura e a enfermidade, a vida e a morte. Embora preserve a liturgia e as características do catolicismo, a igreja é visitada por pessoas de diferentes crenças, que se embalam ao som dos atabaques durante as celebrações, especialmente lotadas às segundas-feiras.

A edificação é simples. Uma pequena escada nos conduz à sua única porta, que dá acesso ao salão principal, com altar ilustrado por uma imagem de São Lázaro, o primeiro padroeiro da casa. Nos ângulos é possível observar mais dois altares, onde estão São Roque, que virou segundo padroeiro já nos anos 90, e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O estilo rural, contendo apenas um corredor e tribunas em um só lado, é de origem romântica, característica dos primeiros anos de colonização pelos jesuítas. O hospital de isolamento ali construído ficava logo atrás da atual estrutura e foi desativado em 1787. Hoje o terreno pertence ao Governo do Estado da Bahia e nele não há qualquer sinal de sua história.

Crença
Segunda-feira o dia começa mais cedo na paróquia do Padre Cristóvão Przychock, um polonês radicado em Salvador há doze anos, seis deles dedicados à Igreja de São Lázaro e São Roque, na Federação. É dia de Omolu e Obaluaiê. Para o pároco, um dia comum de missas cheias. Para os frequentadores do espaço, uma oportunidade de visitar a igreja e pedir suas bênçãos. As barraquinhas são montadas por quase todo o percurso que dá acesso ao santuário. O banho de pipoca é oferecido aos fiéis, que fazem filas para cumprir o ritual pós missa. “É muito antigo e faz parte da história da igreja. Desde a chegada dos padres poloneses, em 1972, que já existia essa movimentação”, conta Cristóvão. A atitude divide opiniões. Nem sempre é elogiada pelo povo do axé, que reserva determinadas práticas ao ambiente propício de suas casas, mas, configura uma tradição do largo, bonita de se assistir a céu aberto.

Assim como a Igreja do Rosário dos Pretos, famosa pelo burburinho religioso da terça-feira no Centro Histórico, a Igreja de São Lázaro e São Roque preservou, além do tempo, as tradições musicais do seu povo. Os instrumentos de percussão dão o tom da celebração, alegre e irreverente, que conta com a participação de mulheres da comunidade que entram dançando ijexá em momentos específicos da missa. “Aqui recebemos todas as pessoas, de diferentes religiões. A casa de Deus é aberta a todos. Celebramos a missa acolhendo e respeitando a cultura do outro, suas crenças. Precisamos entender que esse aspecto histórico é muito forte e rico. Ele existe”, defende o religioso.

Em um altar reservado, à esquerda de quem entra, a imagem de São Lázaro é rodeada por representações de partes do corpo humano daqueles que alcançaram suas graças. É lá também que depositam cestas de pipocas, a principal oferenda feita para Omolu e Obaluaiê, chamada Doburu. É durante uma das principais procissões da Igreja que o cortejo religioso vai até o Campo Santo e retorna. Coincidência ou não, o orixá é o senhor das doenças e dos mortos, regente do cemitério. Carrega chagas no corpo, como aqueles que um dia possuíram lepra, e se esconde cobrindo-se de palhas. Detalhes como esses reforçam a força do sincretismo religioso que perdura por séculos.

 

Festas
A primeira e última segunda-feira do ano são datas sagradas. Missas lotadas e muitos fiéis cumprindo suas promessas. Também é de se esperar casa cheia nas festas dos padroeiros, São Lázaro e São Roque, a primeira comemorada no último domingo de janeiro e a segunda no dia 16 de agosto. “São momentos muito diferentes. A gente brinca que São Roque passou à frente de São Lázaro, pois sua festa é muito maior. A comemoração de São Lázaro é mais silenciosa, mais calma. São Roque tem uma festa de largo. Mas, tudo bem. Às vezes a pessoa não vem propriamente pela fé, mas vem. Se ela veio, está procurando por algo diferente, que complete o seu vazio. Isso também é importante”, conclui.

Independente das diferentes manifestações religiosas, o santuário resiste no alto do bairro, preservando a força da sua história, abrigando as diversas crenças e devoções e afeto. Uns pelos santos católicos, outros por seus orixás. E tem aqueles que se comunicam com ambos os lados e seguem na certeza de que estão verdadeiramente protegidos de quaisquer males que, pelo caminho, venham a surgir.

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