Igreja de Santo Antônio Além do Carmo e a fé na festa

No começo dos anos 2000, ao chegar a Salvador vindo do Rio de Janeiro, Frei Ronaldo deu o recado: não abriria mão de sua cervejinha de vez em quando. Criado em uma família festeira, sempre regada à música e à folia, o religioso pernambucano, que estudou violino mas não levou adiante, veio à capital soteropolitana para tornar-se pároco da Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico de Salvador e lá permanece há 15 anos.

“Quando cheguei aqui, falei: ‘Gente, eu gosto de festa, gosto de tomar minha cerveja, gosto de dançar, então se vocês me virem entrando num barzinho não fiquem espantados, nem achando que é coisa do outro mundo porque não é, é desse mundo mesmo”, brinca o religioso.

Como reflexo do espírito festeiro de Frei Ronaldo, a Igreja de Santo Antônio Além do Carmo é um local conhecido da boêmia de Salvador. Ou melhor, o pátio da Igreja. É lá onde ocorrem as famosas rodas de samba do Grupo Botequim, alguns ensaios do Bloco de Hoje a Oito e o pré-carnaval da banda Bailinho de Quinta. Fora os eventos da própria igreja, como “A Feijoada do Padre” e o “Forró da Paróquia”.

“Antigamente, esse espaço que está atrás era só mato e lixo. Então, eu propus ao Conselho Paroquial para criarmos um lugar que fosse utilizado para a paróquia, com reuniões e eventos de uma maneira geral. O Conselho achou viável e nós começamos a trabalhar. Foi um trabalho árduo, nós não tínhamos recursos. Isso tem 13 anos. Para adquirir fundos, nós começamos a organizar almoços e festas pequenas, como a feijoada que foi batizada de ‘Feijoada do Padre’. A primeira, naquela época, foi para 300 pessoas e a última, que fizemos ano passado, foi para 3500 pessoas. Foram 300 kg de feijão, só para você ter uma ideia”, relembra.

A agenda de eventos no pátio da Igreja é movimentada. Tamanha agitação acaba atraindo críticas de alguns fiéis da paróquia que não aceitam a abertura do espaço para festas seculares. Frei Ronaldo diz que administra as discordâncias de maneira tranquila e sempre reitera que os eventos não ocorrem dentro da própria Igreja, mas em um ambiente que pertence a ela. Além disso, toda a renda arrecada com a venda de bebidas e comidas é destinada à paróquia.

“Eu não vejo o porquê de reclamarem, embora eu respeite muito a opinião das pessoas. Mas a crítica precisa ser construtiva, levar a gente a refletir. Quando alguém só diz ‘não deve existir’, eu pergunto: ‘por que não deve?’. Aí nós vamos dialogar. A música renova nosso espírito e o nosso desejo de viver alegre. Jesus participou de festas, de eventos, estava sempre feliz e, quando podia, também fazia as pessoas felizes. É só ver o exemplo das Bodas de Caná. Ele transformou água em vinho para que a festa continuasse”, ressalta o frei.

Além da verba arrecadada pela paróquia por meio dos eventos, o bairro também é beneficiado por toda essa movimentação. Ambulantes vendem bebidas na praça e os moradores também aproveitam para fazer  dinheiro extra com a venda de salgados, sanduíches e outros quitutes. “As festas não terminam tarde, o som também não incomoda e o comércio fica muito movimentado. As pessoas vêm vender seus salgados, suas bebidas, de forma que a gente está trazendo benefícios para muitos que estão desempregados. Às vezes vêm me perguntar ‘Padre, eu posso colocar meu isopor?’ e eu respondo que a praça é pública, isso se resolve com a prefeitura. Outros dizem que eu não deveria permitir a venda de bebidas na praça. Mas aí eu seria egoísta, ganharia sozinho. Não! Vamos todos partilhar, cada um ganha um pouquinho”, explica.

A Igreja

A Igreja de Santo Antônio Além do Carmo nasceu capela, em 1594. A expressão “além do Carmo” deve-se à sua posição geográfica – depois do Convento do Carmo, uma das portas de entrada da cidade de Salvador na época. Em 1642, tornou-se uma paróquia extensa que ia do bairro do Santo Antônio até Periperi. A atual edificação, no entanto, foi construída em 1827 após fortes chuvas terem derrubado a construção original.

Ainda que esteja localizada no Centro Histórico, a paróquia recebe fiéis dos quatro cantos da cidade por causa da forte devoção ao santo casamenteiro. Logo, pode-se imaginar movimentação ainda maior durante a trezena de junho – época em que não há eventos externos no pátio.

Frei Ronaldo diz que por aquelas bandas, tudo é de Santo Antônio: Largo de Santo Antônio, Rua Direita do Santo Antônio, Igreja de Santo Antônio. “Algumas pessoas me dizem ‘como Santo Antônio é festeiro!’ e eu respondo: ‘demais! ele adora, ele ama!’. Quando não tem festa aqui, ele me pergunta: ‘não vai ter nada?”, completa sorrindo.

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