Casa de Oxumarê: o diálogo como forma de resistência

Em 1952, Getúlio Vargas veio à Bahia participar da inauguração de um hotel. A notícia soou aos ouvidos de Simplícia Brasília da Encarnação como oportunidade: usaria sua influência como ialorixá para conseguir articular uma recepção ao então presidente do Brasil. Mãe Simplícia, na época respeitada líder espiritual do Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó, o terreiro Casa de Oxumarê, preocupava-se com os inúmeros ataques às casas de candomblé na Bahia e o encontro com o presidente seria a chance de denunciar os abusos cometidos contra a religião. Conseguiu abertura para o diálogo com o estadista e a partir de então, conquistou o respeito de autoridades policiais, atuando sempre em defesa dos direitos do povo de santo.

Desde aquele encontro, 65 anos já se passaram. Hoje, sob liderança do babalorixá Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, seu neto, a Casa de Oxumarê mantém-se na luta contra a intolerância religiosa usando a mesma ferramenta utilizada por Mãe Simplícia: a disponibilidade para o diálogo. Com quase meio milhão de seguidores no Facebook, 28 mil no Instagram, site e canal no Youtube, o terreiro criou canais de comunicação com o grande público, adeptos ou não do candomblé. Postagens sobre os arquétipos dos orixás, vídeos e fotos das cerimônias públicas e denúncias de atos cometidos contra casas de axé são maneiras de aproximar pessoas interessadas em conhecer um pouco mais sobre a história da casa centenária e, consequentemente, sobre a religião. Tudo isso, obviamente, respeitando o segredo dos fundamentos, aos quais só iniciados podem ter acesso.

“Nós sabemos que têm críticas direcionadas a nós por causa disso, mas faço de conta que nem vejo. O candomblé é uma religião voltada à ancestralidade, que está lá atrás, não no sentido de ser atrasado, mas de ser tradicional, então tem certas discussões que os mais antigos vão receber com receio”, explica a Ekedi Iraildes de Oxalá. Ela conta que determinadas pautas, como sexualidade e gênero, tem sido discutidas aos poucos.

“Há duas semanas atrás, a gente começou um núcleo chamado Negra Oxum, para discutir gênero e raça. Fizemos um encontro e veio um pessoal de fora que pensou que nós já estávamos falando sobre a questão trans, mas na verdade ainda estávamos discutindo outro tema. Por exemplo, eu sou do gênero feminino, mas meu orixá é masculino. Como é essa energia no meu corpo? Como isso me transforma? Ainda não estávamos discutindo transgênero. A gente quer começar essa discussão primeiro dentro de casa, entre os nossos, porque precisa haver um cuidado. Qualquer pauta dentro de uma casa grande como a Casa de Oxumarê deve ser cuidadosa, porque mexe com a ancestralidade”, reforça.

Com mais de 180 anos, o terreiro Casa de Oxumarê é um dos mais antigos e tradicionais da Bahia, com várias casas descendentes espalhadas pelo país. Fundado em 1836 por Babá Talabí – que veio em condição de escravo da antiga cidade africana de Kpeyin Vedji para o Brasil -, mudou de endereço algumas vezes até fixar-se, em 1905, no bairro da Federação. A localização, no alto de uma colina rodeada por uma densa vegetação, proporcionava uma maior segurança em relação às batidas policiais da época, que proibiam o culto aos orixás. Hoje, o espaço é facilmente avistado por quem passa pela Avenida Vasco da Gama.

 

“Aqui passava um rio. Muitos terreiros migraram para esse local porque você tinha todo tipo de planta utilizada no axé. Temos gameleira, pé de espinheira santa, plantas que você não encontra dentro da cidade”, relembra Iraildes. Duas entradas dão acesso ao terreiro: a de baixo, pela Avenida Vasco da Gama, e no alto pela Travessa Pedro Gama. Ambas servem de passagem para os moradores do entorno, o que faz com que as portas da casa estejam sempre abertas.

A manutenção de uma casa como a de Oxumarê exige muitos recursos. Embora o espaço seja tombado como patrimônio estadual e nacional, a receita vem de doações, do salário do próprio babalorixá, além da ajuda dos filhos e filhas de santo. Às quartas-feiras é servido o amalá de Xangô para visitantes e filhos da casa, sendo solicitada uma pequena contribuição de quem participa, para que seja viável a compra dos ingredientes da semana seguinte. Iraildes explica que dificilmente há doações de alimentos para casas de candomblé, já que o terreiro é um espaço conhecido pela partilha farta da comida, não só entre os seus, mas também para quem chega.

“Agora ainda querem tirar da gente essa possibilidade, chamando o que nós fazemos de sacrifício animal, quando na verdade, há uma sacralização. Você vai comer hoje? Eu também. Eu só não fui no açougue comprar a carne. Ponto final. Quando nós abatemos aquele animal, conversamos com ele, o sacralizamos e agradecemos por ele ter oferecido essa carne. Nós agradecemos o tempo inteiro, antes e depois. É muita reza. Depois, o couro ainda é utilizado nos nossos atabaques. Tudo é aproveitado, mas ninguém ataca o frigorífico. Ninguém ataca o abatedouro de aves. Só sabem atacar o candomblé”, contesta.

Durante a semana, mulheres da comunidade participam de uma oficina de corte e costura e tudo que é produzido fica à venda em uma pequena loja ao lado do barracão. O movimento da casa costuma ser intenso, de filhos que moram no espaço a visitantes que chegam para conhecer o terreiro. Muita gente aparece só para almoçar e garantir pelo menos uma refeição do dia.

“Nesse instante, eu fiz vaquinha para fazer o almoço. Saí com meu pano da costa coletando, um coloca dois reais, outro coloca não sei quanto. Depois todo mundo chega com seu pratinho e come seu pouquinho. Isso é casa de candomblé”, afirma Iraildes.

Depois do almoço, adolescentes filhos da casa descansavam da refeição enquanto rodavam um hand spinner nas mãos, do lado de fora do barracão. No mesmo lugar, cachorros, gatos, um papagaio, um pavão exibido, uma galinha e seus dois pintinhos conviviam em harmonia, como se passassem uma lição: somos diversos, mas há espaço para todos.

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