O patrimônio compartilhado de Pierre Verger

Contam que, certa feita, Xangô avisou à ialorixá Mãe Senhora, do Ilê Axé Opó Afonjá, que um estrangeiro iria bater à sua porta. Ela deveria recebê-lo. Esperou sentada, com os braços cruzados abaixo dos fartos seios – uma posição característica, com os olhos voltados ao portão, que dava vista para uma grande fazenda posta no alto de São Gonçalo do Retiro. Era meio dia e não recebera sinal algum do forasteiro. Fechou as portas e se recolheu, como de costume nas antigas casas de Candomblé, evitando as energias passageiras do horário de transição. Perguntou pelo homem ao jogo e teve a confirmação: ele viria. Retornou no início da tarde ao seu posto, quando avistou Pierre Verger, que subia acompanhado de dois grandes amigos, Jorge Amado e Carybé.

Pierre Verger foi um fotógrafo, antropólogo, etnólogo, pesquisador e babalaô. Nascido em Paris, em 1902, ganhou o mundo aos 30 anos, ao perder sua mãe, última ligação familiar viva. Decidiu viajar, e passou aproximadamente 14 anos em trânsito por diversos continentes, vivendo da fotografia.

Foi em 1946 que pisou pela primeira vez em Salvador. O encantamento aconteceu. Conheceu algumas casas de candomblé na Bahia e iniciou o vai-e-vem de estudos e pesquisas, com profundos mergulhos em alguns países da África Ocidental. Era um mensageiro. Na capital soteropolitana, para onde sempre retornava, escolheu o Centro Histórico para acomodar-se durante o primeiro período: um pequeno cômodo, na Ladeira do Taboão, capaz de abrigar poucas coisas. Ficava no quinto andar e tinha uma janela de boa vista para o Pelourinho, onde costumava deixar repousar uma caneca e sua moringa, no intuito de avisar aos amigos que estava em casa. Assim anunciava a sua presença e também a sua ausência, que era constante. As muitas viagens realizadas o fizeram acumular um material físico incapaz de ser mantido por ali, o obrigando a deixar alguns objetos com amigos e parceiros traçados pelos caminhos.

O pequeno espaço no sobrado já não comportava Verger e suas mais novas descobertas, feitas entre os anos de 1949 e 1960. “Um amigo lhe disse, em tom de brincadeira, através de uma carta encontrada por mim: ‘Da próxima vez, trate de achar um lugar para colocar seus pertences’. Ele já estava sentindo a necessidade de ter um espaço maior e aqui ao lado morava um casal de amigos franceses, que anunciou a possibilidade da aquisição dessa casa”, conta Angela Lühning, Diretora da Fundação Pierre Verger.

A construção ficava no Alto do Corrupio, hoje Engenho Velho de Brotas. Foi também através das cartas que Angela identificou uma passagem escrita pelo próprio Pierre, definindo o espaço como um lugar que o permitia um olhar bonito sobre o verde da Vasco da Gama, onde era possível escutar o ranger dos últimos bondes. Em 1960 os tempos eram outros e as plantas dominavam aqueles morros, próximos de um rio já calado pelo asfalto, chélios de casas de candomblé, onde se encontravam seus amigos alabês, mais um provável motivo para sua escolha.

A Casa
As duas simples estruturas, uma de paredes vermelhas e outra de paredes azuis, cresceram um tanto desde a definitiva partida do fotógrafo. Entre 1960 a 1980, Pierre juntou todo o material que pôde. Voltaria definitivamente da África em 1979, quando dava início à organização do seu acervo, catalogando seus negativos e estruturando o que estava em baús e caixas.

A casa vermelha dividia-se entre escritório e lar. Seu quarto, preservado da maneira que deixou, guarda uma cama simples de solteiro coberta por uma manta vermelha. Alguns pertences figuram ao lado da estrutura de madeira, como imagens da África e recordações pessoais. Uma mesa larga e alguns armários completam a composição, um deles repleto de classificadores catalogados. No espaço ao lado, um quadro de Xangô, assinado por Carybé, chama a atenção entre malas, fotografias e outros armários repletos de materiais. Um não viveu muito tempo sem o outro, mas, enquanto vivos, preservaram uma grande amizade. Em um outra estrutura de madeira, arquivados em pequenas gavetas, é possível encontrar seus negativos originais, que passaram por um cuidado específico para a preservação e manutenção do seu conteúdo.

 

O lugar abriga a Fundação, criada por ele em 1988, responsável por manter viva toda sua obra e acervo pessoal, com pesquisas, documentos, livros, cartas e fotografias, além de realizar exposições, eventos. “Era natural que batesse essa questão de com quem ia ficar tudo isso. Sua ideia inicial era deixar a casa para um amigo, os livros para outro amigo, os negativos para outro… Em algum momento, a ficha caiu. Quem ler os livros não vai entender as fotos, quem tem as fotos não vai entender as cartas e assim por diante. Então ele achou que era melhor deixar tudo junto e descobriu como fazer isso juridicamente. Nesse contexto nasce a Fundação Pierre Verger. Tudo que tinha aqui deveria ficar para esta instituição para que ela cuide”, narra Angela.

A Fundação ainda é responsável por manter o Espaço Cultural Pierre Verger, que fica em um anexo alugado, criado no intuído de contribuir para a formação de jovens do entorno. Oficialmente inaugurado em 2005, surgiu a partir da necessidade de dialogar com a memória do artista e todas as possibilidades deixadas por ele. Com a sua partida, houve um período de intensa chegada de novos moradores no bairro, que não conheciam Pierre Verger e sua obra. O lugar começou investindo em algumas oficinas, durante o centenário do fotógrafo, e, após algumas reformas, se transformou em um espaço de múltiplas atividades, que envolvem esporte, culinária, música, leitura e demais áreas de conhecimento.

Na Fundação ou no Espaço Cultural, ligados por uma escada, a presença do babalaô pode ser sentida em diversos aspectos. Fotografias estão por todos os lugares, ilustrando sua capacidade de capturar belos momentos, mesmo que não falem apenas do lado bom da vida. Como um repórter fotográfico, criou histórias, passou recados, desconstruiu ideias e formou muitas outras.

Já no final da sua vida, com idade avançada e um pouco adoentado, passou os últimos anos identificando fotografias e organizando o que ainda era possível, com ajuda de Vovó Cici, que até hoje o chama carinhosamente de “meu pai Fatumbi”. Fatumbi, nome recebido na África em 1953, significa nascido de novo graças ao ifá. Muitas vidas cabiam em uma só. Por aqui, ele ainda tinha muito trabalho a fazer. Uma caminhada longa e viajada ainda nos causa a impressão de uma vida curta para tamanha capacidade de produção.

Pierre Fatumbi Verger partiu em 1996, com 93 anos. Não deixou herdeiros de sangue e nem formou uma família, possíveis detentores dos direitos e do livre acesso à sua vasta obra. Diante de uma organização para preservação e cuidado, deixou tudo para o povo. Aquele que sempre esteve no foco de sua Rolleiflex.

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3 comentários sobre “O patrimônio compartilhado de Pierre Verger

  1. Apesar de grande parte da minha família ter professado e ainda ter na religião afro-ortodoxa seus guias espirituais, Eu só comecei a entender e com isso me aprofundar neste contexto afro religioso com a leitura do livro “ORIXÁS” do amigo Fatumbi, sou muito grato a Ele por isso.

  2. Eu, a Bahia e o mundo agradecemos imensamente a Pierre Verger por ele ter registrado nossos costumes de forma tão excepcional como nenhum outro, tente imaginar o hoje sem as fotos de Verger, seria um vácuo imenso na nossa história. Obrigado e muito Verger, onde quer que vc esteja!!! Kawô Kabiyesilé!!!

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